Ensaio clínico: o primeiro bioimplante cardíaco com células-tronco do cordão umbilical revoluciona o tratamento do infarto do miocárdio

O infarto do miocárdio é uma das principais causas de morte no mundo, e os tratamentos atuais muitas vezes não evitam o surgimento de sequelas. Nesse contexto, a medicina regenerativa tem se destacado como uma alternativa promissora. Um bioimplante cardíaco inovador, chamado de Pericord, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Germans Trias i Pujol (IGTP) e o Banc de Sang i Teixits (BST), foi avaliado em um ensaio clínico de fase I e os resultados são animadores. Este avanço representa um marco significativo na medicina regenerativa, oferecendo novas possibilidades terapêuticas para doenças cardíacas e outras condições degenerativas

O infarto do miocárdio, popularmente conhecido como ataque cardíaco, é uma das principais causas de morte no mundo. Ele ocorre quando o fluxo sanguíneo para uma parte do coração é bloqueado por um longo período, causando danos ou morte do tecido cardíaco. Essa condição é predominantemente causada pelo acúmulo de placas de gordura nas artérias, um processo conhecido como aterosclerose. 

Os tratamentos atuais focam em restaurar rapidamente o fluxo sanguíneo e minimizar o tamanho do infarto, mas muitos pacientes permanecem com sequelas – fato que leva a uma busca contínua por soluções mais eficazes e regenerativas. Neste contexto, a medicina regenerativa tem proporcionado soluções inovadoras para tratamento destas sequelas e uma das abordagens mais promissoras envolve o uso de células-tronco.

Essa abordagem corresponde a uma tecnologia revolucionária: o primeiro bioimplante cardíaco, para tratamento de infarto do miocárdio, utilizando um enxerto composto por um produto de engenharia tecidual. Este produto, denominado PeriCord, foi desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Germans Trias i Pujol (IGTP) em colaboração com o Banc de Sang i Teixits (BST), instituições localizadas na Espanha. 

O Pericord consiste na junção de células-tronco com uma matriz biocompatível, ambas provenientes de um doador externo, ou seja, é um enxerto duplo alogênico. A matriz é produzida por meio da descelularização, liofilização e esterilização do pericárdio (membrana que envolve e confere estabilidade ao coração e às raízes dos grandes vasos sanguíneos). Essa membrana (medindo de 12–16 cm²) é, então, recelularizada com as células-tronco do cordão umbilical de recém-nascidos (em uma dose de 7–15 milhões de células). Para facilitar a reidratação da matriz e a colonização celular, é utilizado também um hidrogel de peptídeo automontante. Esse tratamento foi projetado para aproveitar as propriedades regenerativas das células-tronco, visando não apenas fornecer suporte ao tecido cardíaco danificado, mas também promover a sua reparação e revascularização.

Essa terapia foi utilizada pela primeira vez em 2019 e, após seu sucesso, foi iniciado um ensaio clínico de fase I visando avaliar se o tratamento era realmente seguro. Os resultados deste estudo foram publicados na revista The Lancet. 

A avaliação incluiu 12 pacientes, candidatos à cirurgia de bypass coronário (também conhecida como ponte de safena). Essa cirurgia consiste na colocação de uma via alternativa para a circulação do sangue, desviando-a da porção do vaso que está bloqueado. Dos 12 pacientes, que receberam o bypass coronário, somente 7 foram também tratados com os bioimplantes. Os outros 5 não receberam o biomaterial, para que posteriormente houvesse comparação dos resultados. 

O bypass garantiu a circulação sanguínea na área e o bioimplante estimulou a cicatrização, iniciando mecanismos celulares envolvidos na reparação tecidual. Após um ano, o tecido implantado aderiu-se e adaptou-se perfeitamente à estrutura do coração, cobrindo a cicatriz deixada pelo infarto. Os pacientes foram monitorados por 1 ano e não apresentaram reações adversas ao tratamento. Os implantes mostraram uma excelente biocompatibilidade, atestando que o tratamento é seguro. 

Os resultados deste estudo têm implicações profundas para o campo da medicina regenerativa, engenharia de tecidos e terapia celular. A capacidade de regenerar o tecido cardíaco danificado utilizando células-tronco do cordão umbilical abre novas possibilidades para o tratamento de doenças cardíacas. Além disso, este avanço pode levar ao desenvolvimento de terapias semelhantes para outras condições médicas que envolvem a degeneração tecidual.

Além disso, os pacientes que receberam o implante apresentaram uma imunomodulação significativa, crucial para o processo de recuperação, pois a inflamação prolongada pode impedir a regeneração eficaz do tecido. Essas propriedades imunomodulatórias podem abrir caminho para aplicações mais amplas, como por exemplo em diversos cenários clínicos onde a inflamação desempenha um papel crucial. Essa versatilidade torna o PeriCord uma opção promissora para administração local, proporcionando potenciais benefícios terapêuticos em diferentes patologias relacionadas à inflamação.

Especialistas na área estão otimistas quanto ao futuro dos bioimplantes cardíacos. Este estudo abre novas possibilidades e reforça o papel vital da medicina regenerativa no tratamento de condições cardíacas severas, combinando inovação tecnológica com o potencial terapêutico das células-tronco. À medida que a pesquisa avança, podemos esperar que essas tecnologias revolucionárias transformem a maneira como tratamos condições médicas graves, oferecendo esperança e novas possibilidades para milhões de pacientes ao redor do mundo.

Referências:

Artigo comentando o estudo: Clinical trial: First cardiac bioimplants for treatment of myocardial infarction using umbilical cord stem cells 

Artigo publicado na revista The Lancet: Implantation of a double allogeneic human engineered tissue graft on damaged heart: insights from the PERISCOPE phase I clinical trial 

Artigo sobre a primeira utilização do Pericord: A team at Germans Trias treat a patient with a new bio-implant to repair heart tissue after a heart attack 

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