O futuro promissor das células-tronco da polpa dental na medicina regenerativa

A polpa dental é uma valiosa fonte de células-tronco mesenquimais. A coleta dessas células é realizada de forma não invasiva, uma vez que o processo envolve a utilização de tecidos saudáveis descartados, especialmente dentes de leite de crianças. Após a coleta, as células passam por etapas de preparação e caracterização em centros de processamento celular, onde são posteriormente congeladas e armazenadas. Esse tipo de célula possui potencial terapêutico, regenerativo e imunomodulador e tem sido utilizado em ensaios clínicos visando o tratamento de inúmeras condições, como por exemplo COVID-19 e regeneração óssea em casos de fissura labiopalatina. 

A medicina regenerativa é uma área repleta de inovação e esperança para o tratamento de várias condições médicas. Entre as fontes valiosas de células-tronco, que têm o potencial de revolucionar o tratamento das doenças, encontra-se a polpa dental, um tecido macio encontrado no interior dos dentes.

A coleta das células-tronco da polpa dental é uma prática não-invasiva, que aproveita tecidos saudáveis que seriam descartados. Esse processo pode ocorrer quando os dentes de leite de uma criança estão prestes a cair naturalmente, durante a remoção cirúrgica de dentes do siso ou quando a extração de dentes é necessária por motivos clínicos. O processo de coleta deve ser realizado antes que o dente caia, uma vez que após a queda, a quantidade de células-tronco viáveis cai progressivamente. Também é recomendado que este procedimento seja realizado em consultórios odontológicos por profissionais habilitados. É importante destacar que quanto mais jovens as células-tronco forem, maior potencial elas têm.

Uma vez coletada a polpa dental, as células-tronco passam por uma série de etapas essenciais de preparação para uso terapêutico. O isolamento é o primeiro passo, no qual as células-tronco são separadas do restante do tecido dental por meio de técnicas laboratoriais especializadas, garantindo que apenas as células de interesse sejam utilizadas. Em seguida, essas células são cultivadas e expandidas em condições de laboratório controladas, permitindo que se repliquem e se tornem uma população maior de células disponíveis para tratamentos. Ou seja, mesmo sendo obtidas de uma pequena quantidade de tecido, as células-tronco da polpa dentária podem ser multiplicadas posteriormente. Por último, essas células são minuciosamente caracterizadas, incluindo testes para verificar sua capacidade de diferenciação em vários tipos de células e garantir a ausência de contaminação. Todas essas etapas são realizadas em locais denominados Centros de Processamento Celular.

As células-tronco dentais são células-tronco do tipo mesenquimal, o que significa que além de possuírem alto potencial de multiplicação, possuem também capacidade de se diferenciar em vários tipos de células do corpo humano, como células da pele, células ósseas e de cartilagem, entre outras. Sendo assim, essas células têm um potencial terapêutico notável e estão sendo estudadas em ensaios clínicos para uma ampla variedade de condições médicas, como lesões na medula espinhal, doenças neurodegenerativas, problemas ortopédicos, entre outros. Além disso, na odontologia, essas células são exploradas para a regeneração de tecidos orais.

A capacidade de armazenamento a longo prazo dessas células-tronco as torna uma promessa para o tratamento de doenças degenerativas, como osteoporose, diabetes e doenças vasculares. Essas células também possuem capacidade imunomoduladora, ou seja, podem regular o sistema imune do paciente, promovendo possíveis terapias para problemas que envolvem inflamação do organismo. Atualmente, há 24 ensaios clínicos, ativos ou já completados, utilizando células-tronco de polpa dental para tratamento de diversas condições. Esse dado pode ser encontrado na plataforma www.clinicaltrials.gov pesquisando-se pelo termo “dental pulp stem cells” no campo “other terms”. 

No Brasil há dois estudos clínicos extremamente relevantes utilizando este tipo de células. O primeiro, desenvolvido por meio de uma parceria entre o Centro de Processamento Celular R-Crio Criogenia e a Sociedade Brasileira de Direito Médico e Bioética (Anadem), visa utilizar células-tronco extraídas de polpas de dentes de leite de doadores para tratamento de COVID-19 em pacientes idosos que estejam no estágio moderado da inflamação, permitindo, assim, que a pessoa infectada pelo vírus enfrente a doença em melhores condições. O objetivo do tratamento é reduzir os processos inflamatórios exacerbados que podem surgir nas pessoas infectadas, uma vez que as células-tronco de polpa dental possuem propriedades imunomoduladoras. 

O segundo estudo, conduzido pela Dra Daniela Bueno, por intermédio do Proadi-SUS (Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde) junto ao Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, consiste na utilização de células-tronco de dente de leite para fazer osso para crianças com fissura labiopalatina. A fissura labiopalatina é um problema congênito de má formação dos lábios e do palato (região do céu da boca) que pode prejudicar o desenvolvimento infantil e, atualmente, o tratamento mais comum consiste em uma série de cirurgias em que é realizado enxerto com parte do osso da bacia da criança – procedimento que gera muita dor e demanda um longo tempo de recuperação. Nesse contexto, Daniela teve a ideia de fazer ossos a partir de células-tronco de polpa dental das próprias crianças. A técnica ainda é experimental e o procedimento tem sido feito em caráter de pesquisa, mas, desde 2012, 64 crianças foram operadas com o método desenvolvido pela pesquisadora. Em um de seus estudos, ela demonstrou que a recuperação das crianças operadas com sua técnica é melhor do que entre as crianças operadas com a técnica clássica de cirurgia. 

À medida que a pesquisa avança, as células-tronco da polpa dental representam a promessa de tratamentos inovadores e menos invasivos, que têm o potencial de beneficiar inúmeras pessoas em todo o mundo. Elas representam a capacidade do nosso próprio corpo de se curar e regenerar e o futuro promete avanços significativos nesse campo da medicina regenerativa.

Referências:

Processo de coleta de células-tronco da polpa do dente: https://r-crio.com/blog/tudo-sobre-coleta-de-celulas-tronco-do-dente/ 

Armazenamento de células-tronco dentais: https://www.projetodraft.com/r-crio-a-startup-brasileira-que-chama-atencao-por-colher-celulas-tronco-em-dentes-de-leite/ 

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